quinta-feira, 30 de junho de 2011

Já faz algum tempo...

Hoje já se passou algum tempo do dia em que uma vida inteira se transformou. Mais que uma vida, algumas vidas se transformaram. Tudo se transformou.

Em 22/05/10 uma mãe, filha, avó, guerreira e tão admirável ser humano foi ao encontro do seu verdadeiro Lar. Entre outras tantas partidas como esta, deu-se a dela. A partida dela que iniciou uma chegada minha a mim mesmo. De repente ela não podia mais ficar e num sopro se foi. Tão doloroso o sentimento de uma 'perda' até entender-se que na verdade nada se perdeu.
Tudo tão inevitável e de certa forma, aguardado as vésperas. Vários prenuncios sobre essa volta dela. Mas nunca, quando de fato ocorre, é muito simples de ser compreendido. Mas foi. E assim, um sentimento de força, uma coragem grandiosa, palavras certas de conforto e muito, muito carinho, impulsionaram a seguir a diante e sempre.
Dali em diante, eu que filha, irmã e companheira, passei a isso e mais um pouco. Filha, irmã e companheira aceitando a separação, inevitável, de planos entre ela e a pessoa mais ligada a ela. E mais uma vez, assim foi.
Mistura de muitos sentimentos, controvérsias de pensamentos, compreensão, aceitação, intervenção, oração, agradecimento, luto designado, luto aceito e vivido.
E muito cansaço, muita correria, muito aprendizado, muito esforço, muita vida, muita vontade de viver.
Daí que se foi um mês, foram dois, três, um semestre..um ano! E tudo se transformou. Dia após dia, os sentimentos mistos, mais mistos ficaram. Brandos, tornaram-se brandos e calmos, serenos.
Mas a saudade, ah a saudade. É a mesma, quer dizer, é a mesma, mas cada vez mais intensa.
Primeiro aniversário dela sem ela, primeiro aniversário meu sem ela, primeiro natal sem ela, primeira virada de ano sem ela, primeiro ano de...ano de morte?Não, apenas primeiro ano em que eu permaneço aqui e ela "lá", jamais morta. Apenas separadas temporariamente. Ah que bom dizer isso, escrever isso e viver isso!
Tantos sonhos, sonhos lindos!Tantas conversas nestes sonhos, amenizam a saudade.
Que amor mais bonito. Nunca pude experenciar tanto amor. Tanta identificação, e ao mesmo tempo oposição, eu pude viver, se não sendo a filha dela.

A primeira lembrança:

Da despedida. Um eu te amo tão pleno de razão, pleno de um amor tão maior. Foi assim que a deixei naquele hospital. Enganando a mim, mas não aos meus sentimentos, eu saí dali dizendo que a amava muito e que logo ficaria tudo bem. Bom, se vendo por esse lado, eu não menti. Pois realmente ficamos bem, apenas não no mesmo plano. Mas é temporário, passará rápido. Eu sei que plantei uma esperança de que pudesse ficar aqui comigo. Foi por impulso, sempre fui muito impulsiva. Mas sempre fui muito realista e eu sabia, de certa forma, que seria a última vez. Ela também sabia, estava só insegura..coisa de mãe. Mães são super inseguras né? A gente encontra toda a segurança do mundo nelas e elas estão ali, inseguras por ter de proporcionar sempre a segurança. Eu sou muito insegura...mas com ela eu me sentia plena e na maior segurança do mundo..que ironia. Ela tinha medo de me deixar aqui, e eu medo de como ficaria sem ela. Fiquei bem. Não sei explicar até hoje como, mas fiquei muito bem. Comecei a caminhar com as 'próprias pernas', desenvolvi técnicas de sobrevivências de dar inveja!rs Sou uma pessoa melhor, acredito. Cresci, amadureci em um espaço tão curto de tempo e por motivos torpes.
Poderia ter vivido isso tudo antes? Talvez. Quem irá dizer não é mesmo? Precisei viver através destes acontecimentos. E olha, sou tão grata por isso tudo. Tão grata por ter tido a honra de ter vindo filha de uma mãe, que se não fosse a minhã, eu certamente - se possível fosse - teria a escolhido. Que linda! Era tão linda! Deve estar mais linda agora, não teria como ser diferente.

Deixou  as mais perfeitas lembranças...são muitas, um tantão!Que nem esse amor maior: um tantão!

Conjunto...

É o começo de um conjunto. Um conjunto de lembranças, boas memórias, sentimentos de antes e de agora.

Um conjunto que hoje se divide entre lembranças vivas e outras ainda mais vivas. A junção de duas almas, ligadas além de um plano e atualmente separadas apenas por um divisor - dos mesmos planos.

É um meio, apenas mais um meio, de transformar a dor em saudade. Não existe mais pesar e tudo que fica são as boas memórias e o sentimento de vivacidade que perdurará até o encontro, onde se fará ainda mais vivo e eterno.

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